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Consumo
Um negócio para quem tem faro
Thierry Bessard é um sujeito cujo nariz deve ter nascido dez anos antes do resto do corpo. O olfato extraordinário desse parisiense é capaz de distinguir cerca de 2.500 odores – e, o mais importante, é capaz também de combiná-los em uma infinidade de outros. Da mesma forma que um compositor arranja melodias e ritmos em música, Bessard combina aromas em perfumes. Radicado em São Paulo há dez anos, ele é perfumista sênior da Givaudan, casa de fragrâncias suíça que desenvolve perfumes para grifes como Armani, Givenchy e Dior e, no Brasil, para a Natura, O Boticário e a Avon. Um dom como o de Bessard requer um bocado de favor genético (não por acaso, o ofício é muitas vezes passado de pai para filho), e exercitá-lo é uma arte – que tem de ser aprendida à maneira de uma ciência. Bessard estudou por cinco anos num dos maiores centros mundiais da especialidade, em Versalhes, onde cursou química e bioquímica e passou os três anos finais cheirando, cheirando e – adivinhe – cheirando, até adquirir um "vocabulário" básico de odores e entender como misturá-los de forma equilibrada.
Antes de estar dentro de um frasco extravagante, pronto para ser borrifado na pele, um perfume percorre um longo trajeto, que tem no nariz do perfumista seu estágio mais crucial. Na maioria, esses profissionais trabalham em casas de fragrâncias – empresas que produzem sob encomenda as essências vendidas por marcas famosas. Embora clássicos como o Chanel nº 5 tenham nascido de uma grande dose de pura inventividade, hoje os artistas do cheiro não seguem apenas o seu faro e criam a fragrância que lhes vem à mente. Um bom nariz é sempre guiado por pesquisas de mercado que detectam quais são as tendências ao redor do mundo e os gostos do consumidor. "Quando nos pede um perfume novo, o cliente já delineia seu conceito e o tipo de pessoa que pretende alcançar", diz Alessandra Tucci, diretora de perfumaria para a América Latina da suíça Firmenich.
O departamento de pesquisa olfativa da Natura: muita ciência a serviço da arte de criar fragrâncias
Um estudo da Natura com 1200 pessoas de São Paulo e do Recife dá uma idéia do que as brasileiras querem: a maioria deseja transmitir com seu perfume bem-estar, liberdade e modernidade. Outras buscam status, isto é, uma embalagem atraente ou algo que está na moda. "Algo que combina com meu estilo e personalidade" ou "É meu cheiro" são frases que aparecem com freqüência nessas pesquisas. Em uma crônica publicada em 1968, a escritora Clarice Lispector explica por que o aroma é algo que está além da razão e de definições objetivas. "Eu me perfumo para intensificar o que sou", escreveu Clarice. "Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E, como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu. Duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. E deram-me de volta: simplesmente não era delas. Não digo o nome também por segredo: é bom perfumar-se em segredo."
Traduzir dados subjetivos em uma marca inédita é um talento em si, e tarefa que cabe a outro profissional: o avaliador. Ao contrário do perfumista, ele não necessita saber discernir todos os ingredientes de uma composição (cada perfume combina, em média, 100 essências diferentes). Mas tem treino para captar as nuances e apontar o que está em excesso ou em falta, até deixá-la ao gosto do mercado. É ele quem diz, por exemplo, que o conjunto deve ficar mais doce ou mais amadeirado, explica Luciana Knobel, diretora criativa de fragrâncias da Givaudan.
Embora os bons perfumes quase sempre cruzem fronteiras – e décadas –, essa é uma química que tem muito de regional. Exemplo: na Itália, lavanda é perfume para homem. Nos Estados Unidos, aromatiza produtos de limpeza. Já no Brasil é a fragrância favorita do público feminino – o que não significa nem que as brasileiras são masculinizadas nem que cheiram a desinfetante, mas sim que o significado dos odores varia conforme o lugar e as experiências vividas. É, por assim dizer, também cultural, além de pessoal. "O olfato está atrelado diretamente à memória e às sensações de prazer e desprazer", explica o otorrinolaringologista Arnaldo Guilherme, da Universidade Federal de São Paulo. Aqui lavanda significa frescor, e em um clima quente sentir-se refrescado é uma necessidade. "Fragrâncias que passam essa sensação de pós-banho vendem como água por aqui", brinca Helena Gracia, gerente de perfumaria da Avon.
Em geral, esse frescor vem dos aromas de frutas cítricas, das notas verdes e das florais. Já cheiros muito pesados brigam com os climas tropicais (embora parte do público os a-do-re). Por pesados, entenda-se aqueles perfumes em que predomina uma única flor, geralmente branca, como um jacinto ou uma dama-da-noite – aromas opulentos que reinam absolutos nos Estados Unidos, mas que, no calor, deixam um rastro opressivo.
Os cheiros mais cítricos, provenientes de frutas, são os primeiros a ser sentidos em uma borrifada. As moléculas que os compõem são menores e se evaporam mais rapidamente que as restantes – ou seja, são também as primeiras a desaparecer. O que fica a seguir é o "corpo", o aroma quase sempre floral que dá personalidade à fragrância. No fim do dia, ele já tenderá ao amadeirado. Esse é o estágio em que se sentem as notas de fundo, as últimas a ir embora da pele. Por causa dessa evolução de um perfume no decorrer das horas é que nunca se deve comprar uma nova fragrância com base na sensação inicial que ela provoca. O ideal é experimentá-la por um dia inteiro. Como compara Alessandra Tucci, da Firmenich, um perfume é como um namorado ou um marido: só se revela com a convivência.
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